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A Biblioteca Visual

Se algum dia pudermos eleger um único objeto do desejo; aquilo que pode beijar as suas memórias mais profundas, mais significativas no tempo, este objeto é o livro. 

Nenhuma outra tecnologia pôde ser tão fiel à necessidade tátil, viril, delicada e estranha contendo tanta felicidade e tristeza misturadas a signos, textos, imagens (uma escultura ao se aproximar de nós como o amor), movimentando- se na mente como se descobrisse conosco (e coversasse conosco) sobre o mundo possível no arquivo dos pés; nas experiências que partilhamos a conta gotas entre nós. 

Experiências em imagens: partituras tão necessárias à vida poética. 

Hoje o livro se alimenta desmembrando a própria ambição do artista por colecionar e organizar o que podemos chamar de conhecimento visual. 

Este conhecimento móvel, articulado na informação faz uso de tudo o que é impresso, reinventando a liberdade no sabor de uma poesia alheia a um entendimento imediato. É preciso que o tempo (tão lento e tão raro) possa entender (e estender suas raízes) para puxar na história uma outra história cheia de irregularidades e cicatrizes, permeada pela seiva digital na propagação de suas possibilidades agarrada ao seio fotográfico. 

Se nos organizamos desta maneira pela sequência programada de imagens em instalações tão simples e complexas como um espelho dentro de outro espelho, temos a disposição uma biblioteca sem prateleiras onde os olhos folheiam os espaços ocupados da Casa Contemporânea como verdadeiros volumes que num determinado momento são livros (mas livros espalhados na arquitetura) onde podemos mergulhar no contexto usual da palavra antiga que modela as coisas no silêncio. A palavra mantém o fio tênue do entendimento. 

Mantemos a escultura como parâmetro e o cinema como uma inspiração. Os sites e blogs que ligam a questão mágica da comunicação entre os participantes são como folhas soltas (materiais) luzes, argamassas essenciais do presente, pois o objeto confere o grau de pesquisa de cada um como um tijolo ao lado de outro tijolo, um livro ao lado de outro livro/ uma verdadeira parede quando tentamos seduzir o problema.

É evidente que a leitura sensível das obras será o acordo que cada um de vocês podem fazer nas sombras de uma tarde de outono, entre a brutalidade do tempo e os desenhos – palavras que gravamos no aço ou no papel, de acordo com o céu ou pendurados e costurados rente ao corpo de uma escada. O que podemos refletir é a forma que o grupo de artistas realizou nos pedaços dispersos nos cômodos de uma casa com uma história ligada aos paralelepípedos da rua: estas páginas de granito cobertas de asfalto aqui em São Paulo. 

O muro é baixo como uma lombada. 

O portão é a capa do volume que abre devagar para o pequeno jardim e este jardim completa o sentido de todos vindos para cá ao entrar pelo corredor. Ali temos uma sequencia onde o corpo é coberto por páginas e essas páginas estão também sobre nós, pois somos cobertos por palavras invisíveis desde que nascemos. Antes de poder falar, ouvimos... e quando falamos, mais tarde...; bem mais tarde nas cifras da infância onde a realidade é movediça, lemos. 

A casa é o livro. Podemos ser as parcelas de algo que escapou das fibras e não é dito corretamente em palavras, mas sim por módulos próximos a um folhear do presente/ nas horas e nos compassos daquilo que podemos fazer nos detalhes. 

Os artistas são os tipógrafos que ouvem e anotam; a sonora palavra que propõe uma determinada paisagem fatiada por vigas e paredes, janelas, escadas, pisos, frestas onde comentários são inseridos visualmente no corpo do espectador curioso na leitura da estrutura reunida. Não posso aqui separar os trabalhos e determina-los individualmente por mais que seja o óbvio. Penso no conjunto e na leitura de um sobrado como algo a ser visto por nós na participação. Mas o objetivo não é alcançado tão rápido assim. Para entender os livros desta biblioteca temos primeiro que buscar as formas mais próximas, aquelas cujas memórias e outras névoas são feitas por técnicas que abraçam a ideia da juventude que viaja de um artista ao outro, na passagem por encadernações, pastas, papéis da espessura da manhã, caixas, cartões, sequências escritas em vidros e sinais de uma linha que não é exatamente uma "linha”, mas um feixe até as obras que mostram no tecido (na relação com o ambiente) o outro ambiente. 

Algo temperamental para colocarmos na mão. 

Penso que é um pouco daquilo que estamos dispostos a descobrir quando no fundo podemos pesquisar: a poesia útil dos dias de chuva.

Ulysses Boscolo

Manhã de 22 de março 2014.