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Marina de Falco: Memória e Corpo como Síntese

“A lembrança representa precisamente o
ponto de encontro entre o espírito e a matéria” 

Henri Bergson

Há uma relação significativa entre a obra de arte e o corpo de seu produtor? – se estabelecermos que sim, ela existe, quais são os parametros nos quais isto se verifica?

Não se diz aqui da relação óbvia que acontece em artes performativas, por exemplo, ou, menos óbvia, naquela presente na action painting de um Pollock.

O que se tenta estabelecer aqui é, antes de uma certeza peremptória, algo da ordem da dúvida capaz de engendrar um pensamento que nos aproxime de trabalhos que numa primeira visada teriam pouca espessura ou seriam de apreensão enganosamente direta. Conformados a este pensamento, a gravura ou a cerâmica seriam exemplos que serviriam, mas prefiro outro, neste momento, por trazer uma complexidade que, paradoxalmente, pode nos ajudar; é o caso da regência de obras musicais. Se considerarmos o maestro como pelo menos co-criador das obras que rege e de como com seu intelecto, experiência e intuição conjugadas com suas ações ou gestos, pode alterar a dinâmica e a compreensão de uma peça bem como “moldar” o som, enquanto matéria, através de outros corpos dotados de próteses sonoras, agindo em rede intelectual / cognitiva, temos a dimensão do que pretendo dizer.

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A produção recente de Marina de Falco (de meados de 2012 até o presente) poderia ser descrita como uma retomada de conceitos concretos e neo concretos que, mesclados, buscam atualizar uma trajetória extensa nas artes visuais. Isso soaria “verdadeiro” para quem conhece estes trabalhos recentes, mas não ajudaria na compreensão destes nem daria conta da dimensão de sua trajetória. 

Marina desenvolveu e desenvolve trabalhos em várias linguagens; também exerceu atividades pedagógicas relativas à arte por longo periodo. A relação intensa que possui com a arte é evidente não por estes fatores, mas por algo que aparece nos trabalhos de maneira enviesada representada por uma temporalidade dilatada de par com uma maneira obsessiva de esgotamento das potencialidades. De forma mais clara: dentre essas linguagens a gravura e a cerâmica acompanharam Marina por muito tempo. Ambas exigem um rigor e uma dedicação ao fazer quase monástica para converter aquilo que carregamos enquanto pensamento no contato com a matéria ,seja o duro metal ou a moldável argila. Porém elas também possuem, cada uma à seu jeito, uma memória do gesto que as conformou; essa lembrança do corpo imprimindo sua força ou delicadeza sobre a matéria fica ali de maneira pouco evidente, todavia presente. Além disso, para ficarmos apenas nas gravuras, Marina alterava, muitas vezes, as cores de uma mesma matriz gerando uma nova série de impressões. Este procedimento guarda algumas questões que serão importantes em relação a produção recente como 1) uma alteração sutil que muda o caráter do trabalho; 2) a aquisição de um “ritmo”; 3)  o surgimento de um sentido de conjunto para trabalhos aparentemente iguais. Mas também linguagens como o desenho e a pintura, que sempre estiveram em sua companhia, nos dão pistas do que viria; e é um exercício estimulante olhar para pinturas que chamarei de “marinhas” (ainda que algumas de qualidade discutível) abandonarem a representação do corpo humano para deixar o protagonismo à paisagem e esta ir perdendo sua conexão com o que a tornava  reconhecível, como um estranho procedimento que procurava incorporar uma dimensão temporal através de recortes sucessivos (ver imagem) ou incorporação de faixas de cores como tentativa de conciliação entre dois mundos; neste ponto entendo que surge uma quarta questão, não menos importante: a intuição como condutora de um trabalho. Cabe atentar que não falamos de uma intuição como pensada pelo senso comum mas aquela que é teorizada por Bergson  como realidade sentida e compreendida absolutamente, de modo direto, sem ferramentas lógicas de entendimento como análise formal ou tradição. Assim, como quem escuta uma música com elementos dissonantes e sem poder ler uma partitura.

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O artista é aquele que possui a mente inquieta, manifestada muitas vezes fisicamente, agitadamente. As inquietações de Marina parecem te-lâ feito perceber o esgotamento de suas pinturas “marinhas” e deduziríamos que a mudança de rumo para a produção atual foi total, como se ela negasse o que tivesse feito até então. Discordo totalmente disso.

Visualmente trabalhos como (imagens) tem características formais que os associam a produção concreta brasileira; isto torna-se mais explicito quando sabemos quanto Marina tem em alta conta Hélio Oiticica, mas devemos ir além da visualidade para que estas pinturas mostrem sua potencialidade. É importante sabermos que Oiticica foi leitor atento de Bergson desde os meta esquemas  e que, arrisco dizer, isto continuou a influencia-lo nos trabalhos associados ao neoconcretismo principalmente no entendimento do corpo como centro de ação com consequencias para a percepção e interações com a memória e do proprio corpo com o espírito.

Dito isto penso que esta produção recente de Marina de Falco consegue não só lidar com uma sombra poderosa mas o faz de forma muito pessoal, não reverencial e surpreendentemente coerente. Nestas pinturas estão presentes o rigor, potencializado pelas relações matemáticas, e aquela dedicação ao preparar as telas, as tintas. Estão lá também as alterações sutis que agora não mudam só o caráter do trabalho, mas trazem o “tempo-duração”  bergsoniano efetivamente para seu interior através da incorporação do “ritmo” e consequentes mudanças de “andamento” ao se alterar seus posicionamentos; se estabelece também, e de forma mais clara, a noção de conjunto. E aquela intuição agora pode mostrar todo seu potencial, pois a construção destas pinturas e seus desdobramentos mescla conceitos diversos como a matemática e uma afetividade difusa e, principalmente, o corpo como esse centro de ação .  

São essas pinturas e suas expansões que atualizam não só a produção de Marina como são respostas possíveis  ao lidar com artistas ou movimentos de grande importância para a arte moderna / contemporânea. Quando Marina altera a disposição das pinturas (imagem vídeo) através de uma ação performativa temos ecos das ações dos Parangolés de Oiticica, mas é justamente a distância, em todos os sentidos, que os separa e que torna esse eco quase inaudível que permite que uma dimensão autoral se estabeleça com mais força. Esse corpo deixa de ser suporte para cores e planos, ainda que imprimindo dinamismo, para ser centro de uma ação que delimita os campos de atuação: a pintura em seu suporte tradicional e histórico deixa de ser estática e passa a ser dinâmica e interagir com as outras telas e o espaço e o corpo age como o chamado centro de ação bergsoniano, ou seja, contribui diretamente para a representação e enfatiza algo intuído por Marina, e dito por Bergson, sobre a percepção ser algo externo ao nosso corpo e ser própria dos objetos em questão . Além disso estabelece-se uma relação espacial e temporal para essa produção, quando expostos adequadamente, que remeteria ao Livro do Tempo de Lygia Pape, por exemplo; principalmente nos trabalhos (ver imagem) onde as pinturas monocromáticas se sobrepõem criando estímulos que ora remetem ao repertório tradicional (figura-fundo) ora agem de uma maneira sensorial mais pura ( estímulos de cores contrastantes no espaço).

Nesta produção recente a artista produziu trabalhos com uma imensa gama de possibilidades, refutando o entendimento mais usual que seria este um caminho limitador. Trazendo à tona, através da coerência, suas lembranças laborais ou até mesmo afetivas, permitiu ao corpo, seu e do outro, fazerem parte destes trabalhos de forma integrada.

Marcelo Salles