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SOBRE COISAS DIFÍCEIS

O desenvolvimento de um trabalho em artes não é imediato nem linear.

Se entendermos esse processo como pensamentos que são sistematizados, de maneira particular pelo artista, e adquirem conformação, material ou imaterial, conseguimos ter a possibilidade para um entendimento mais pleno do trabalho executado. Alguns artistas, em qualquer linguagem, tornam sua produção mais complexa ou “difícil” dotando-a de características que parecem incompreensíveis ou são menos assimiláveis. Há duas linhas de compreensão para este enunciado: uma considera este tornar-se “difícil” uma opção enquanto estratégia e com implicações variadas. A outra é menos opção que necessidade, pois esse artista precisa alcançar algo que ele não sabe o que é.

As pinturas recentes de Edu Silva são difíceis; principalmente se comparadas a sua produção anterior onde a representação do espaço de vivência (o bairro, as casas) era figurativo em certa medida e com uma opção gráfica que dialogava com os grafittis. Isto, evidentemente, tornava-as mais assimiláveis, mais “fáceis”. Todavia, como foi dito antes, deixa-las mais complexas não foi opção e sim consequência necessária do tecido imaterial onde mesclou suas tintas, à saber: as tramas e urdiduras da realidade social e os espaços onde ela se organiza e ocorre. O que legitima essa sua busca é a honestidade com o que produz e consigo mesmo, ainda que isso não seja garantia de nada para si[1], ainda mais em tempos de desgaste abrasivo sobre essa palavra. Estes aspectos imateriais, ou não formais, poderiam tornar sua obra mais assimilável se ela fosse premida por algo diverso da honestidade e sucumbisse ao panfletário como vemos usualmente. Seu caminho é outro.

A junção dos componentes imateriais entremeados aos aspectos formais, que esteticamente Edu utiliza, tem matriz moderna, mas como um jogo entre material e imaterial extremamente contemporâneo; não como moda, mas como inquietação própria do tempo que vivemos. Esse “jogo”, ou negociação, acontece em vários estágios concomitantes, do qual o espaço é o estágio fundante para que dois “times”, como em um bom jogo, ajam em campos opostos: um é o espaço material da tela e o outro é o espaço urbano das periferias, real, mas tornado imaterial através da subjetivação do olhar e sua consequente abstração construtiva. A maioria das telas utilizadas possuem o formato quadrado, como se o espaço regular de lados iguais tivesse a capacidade de equalizar as tensões que ocorrerão em seus limites. Tal como se as periferias contidas em nacos distantes aplacassem as tensões sociais. Penso que muito da tensão presente nos trabalhos desta exposição surgem da necessidade auto imposta pelo artista de conter a tinta nesta quadratura.

Estabelecido o campo de atuação de forcas o estágio seguinte é conformado pelas cores. Aqui Edu Silva tratará as questões raciais e de segregação que o afligem de maneira inusual, onde o pensar sobre possui uma elaboração intelectual natural (e por isso mesmo tão feliz em sua consecução) que surpreende. Ao denominar esta série de pinturas “Estudos sobre Mestiçagem” ele explicita a questão principal de suas pesquisas e inquietações, mas não se vale disso de maneira panfletária. Ele rompe com o encaminhamento usual ou mais simples de usar uma paleta “humana” (nas palavras do artista) para representações óbvias em relação ao tema pretendido[2]. Edu usa a liberdade para desenvolver uma paleta que busca uma harmonia complexa, através de uma construção  que organiza o espaço  por meio de planos de cores predominantes espacialmente, normalmente em dois tons, com fatura mais uniforme que cobrem boa parte da tela; em algumas as bordas dessas áreas estão “manchadas”, em outras isto não acontece. Surgem entre esses campos de cores fissuras com cores outras que afloram e se tornam visíveis, muitas vezes enfatizando a área menor. A convivência entre essas cores belas e conflituosas, com suas interações negociadas à duras penas entre as fissuras ou bordas da tela,  como se forçassem a trama de um tecido íntegro e coeso, mas na verdade puído, que cobre tal qual um tapete aquilo que não deve ser mostrado. Qualquer semelhança com nossa sociedade não é mera coincidência.

A junção arte e política sempre foi prejudicial para a primeira. Ao incumbir a arte de uma função, normalmente ela se rebaixa ou perde sua potência exatamente onde foi requisitada. Já foi dito que a arte alcança o objetivo que não tem[3]. Definir um objetivo, uma função, é diferente de ter com que e sobre o que produzir arte. Daí decorre, para artistas como Edu Silva, as incertezas, as angustias de uma produção que está em embate constante entre o fazer e o comunicar algo. Acredito que a série “Estudos Sobre Mestiçagem” retira sua força também de uma necessidade de beleza que Edu persegue insistentemente. Não é a beleza pasteurizada ou do senso comum, mas sim aquela beleza que incomoda e que, sobretudo, nos faz pensar; que nos faz olhar as coisas com calma e questionar que, sim, há outras possibilidades nas relações entre os diferentes convivendo num mesmo espaço, desde que haja um desvelamento sincero daquilo que está oculto. Porém, não nos enganemos: isto não é fácil.

Conta-se que um filósofo e um respeitado sacerdote conversavam sobre o que seria o belo. Os questionamentos se alongavam e o filósofo ia demonstrando, ardilosamente, que a beleza poderia assumir várias formas ao que o sacerdote ia retrucando que isto não era possível pois a beleza deveria residir em coisas elevadas ou consensuais à maioria das pessoas. Polidamente, o filósofo fez ver ao sacerdote que era possível se enganar a respeito da beleza e onde ela residia , desde que fossemos capazes de ir além da doxa (opinião), expandindo nossa compreensão através de questionamentos e concluía a conversa com uma frase:

A beleza é coisa difícil[4]

Marcelo Salles



[1] Citação à Clement Greenberg in Crônica de arte, pg.179, Arte e Cultura, editora Cosac & Naify.

[2] Recentemente a artista Adriana Varejão apresentou uma serie de telas (Polvo Portraits) onde desenvolveu uma paleta de tons “de pele brasileira”. Ainda que conceitualmente irreprensível o resultado é um tanto constrangedor .

[3] a autoria desta frase parece ser de Benjamin Constant; citado por Jean Philippe Domecq in Uma Nova Introducão à Arte do Século XX

[4] Hípias Maior, diálogo platônico entre Sócrates e Hípias Maior