Pigmento em Campinas (ou buscando entender o caos)

Pigmento em Campinas (ou buscando entender o caos)
Zwei Arts

Textos Críticos

Pigmento em Campinas (ou buscando entender o caos)

“Não o pensamento , mas a potência do pensar
Giorgio Agamben (em referência à Aristóteles)

…mas não é o caos a pura potência do porvir?
autor anônimo indiano

 

 Palavras tem significados. Algumas trazem um peso maior derivado não tanto do que sabemos desse significado, mas  da carga adquirida. Caos normalmente é associado ao descontrole, catástrofes naturais, mudanças não planejadas em nossas vidas; seria, portanto, aquilo que nos surpreende porque não fomos capazes de prever ou pensarmos a respeito escapando, desta forma, a qualquer controle ou dominação possível. Talvez isto derive do fato de que a espécie humana foi capaz de exercer um controle sobre quase todas as coisas com as quais ela entrou em contato. Foi esse aspecto diligente e criativo que possibilitou sermos mais de oito bilhões de pessoas no mundo. Se não dominássemos a natureza não poderíamos ocupar praticamente qualquer região do globo terrestre ou sobreviver a doenças  através de drogas sintéticas ou intervenções cirúrgicas e não seriamos mais do que algumas dezenas de milhões.

Soa estranho que o sentimento de onipotência, advindo desse domínio conquistado pela inteligência humana, possa ser abalado à simples menção de determinadas palavras. Há pessoas que não mencionam dor, morte ou caos, por exemplo, pois estas palavras tem aquela carga citada acima, como se, ao nomeá-las, elas tornar-se–iam de pensamentos em atos e daí em algo estabelecido que não podemos controlar. Por isso quando o inusitado acontece ele nos surpreende. Deveríamos olhar para o caos não como um descontrole, mas como uma ordenação da qual ainda não nos demos conta.

Acredito que justamente aí a arte pode nos ajudar singularmente; o objeto ou obra de arte é um pensamento transformado em ato, mas ainda guarda a potência de transformar-se em pensamento de novo, cabendo àquele que vivencia a experiência a escolha de torna-lo ato novamente. Essa indefinição, ou caos, é apenas uma aparência. O caos é apenas uma ordenação que ainda não entendemos.

Esta exposição desenvolve-se exatamente assim: da aparente desordem questões contemporâneas e atemporais emergem com toda força. Abordagens políticas como o esgotamento dos recursos naturais, o consumismo, o problema dos refugiados e das guerras ou a dissolução de regras democráticas em nosso país tomam forma. A representação do real ou do pensamento abstrato e  as questões de gênero também estão presentes, de maneira usual ou nem tanto. Talvez nos chamem a atenção mais fortemente trabalhos que lidem com as questões atemporais  como a memória, laços familiares, vida, morte, superação.

Através da arte a potência do pensar pode colaborar para nossa compreensão  daquilo que nos surpreende ou que nos assusta, daquilo que nos entristece ou nos deixa atônitos. Pode, inclusive, fazer com que aceitemos o caos e perceber que ele apenas antecede tempos vindouros.

Marcelo Salles