Leituras – Grupo Pigmento

Leituras – Grupo Pigmento
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Leituras – Grupo Pigmento

Ler requer de nós o conhecimento prévio de signos ordenados de determinada maneira que nos identificam como um povo, um local, uma cultura. Nesta ação utilizamos a visão, mas também podemos utilizar o tato (como no sistema Braile), como meio para estruturar uma compreensão, ou mesmo uma imagem, de algo no cérebro.

Uma leitura, portanto, é o ato de ler o que está diante de nós. Isto ganha um sentido mais amplo se entendemos “leitura” como interpretação, uma construção, que depende de nosso repertório cultural e sensório e que acontece em dois momentos: o primeiro quando alguém cria um objeto passível de leitura (podemos chamá-lo de autor) e o segundo quando este objeto é “lido” ou “recebido” por outro (podemos chamar esse outro de leitor ou receptor).

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A partir do final de 2019, as reuniões do Pigmento passaram a incluir excertos de obras literárias nas discussões. Isto somou-se às análises de textos críticos, de exposições e dos próprios trabalhos das dez integrantes. Todavia, estes excertos não serviam de exercício e nem tem relação direta com as obras expostas.

Esta relação com a literatura, na verdade com a narratividade, deriva da ligação arcaica entre pintura e poesia e como poderíamos, através da arte contemporânea, compreender melhor o que estas artistas fazem. É importante reforçar que apesar do nome, o Pigmento tem em sua trajetória artistas que exploram outras linguagens além da pintura, como se confirma na exposição.

A frase Ut pictura poesis, que pode ser traduzida assim como a pintura também a poesia, é o que nos conecta a uma certa “leitura” do mundo através da arte, trazendo uma narrativa fragmentada, tortuosa, inventiva, surpreendente ou inusual. A pintura e outras manifestações artísticas, como a poesia, perseguem o entendimento do mundo sob uma ótica subjetiva (através da visão do artista) que depois se expande para outras pessoas onde esta subjetividade poderá produzir afetos e ressonâncias. Ou não.

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Para que possamos fazer uma leitura de algo estamos, portanto, sujeitos tanto à uma externalidade (como a cultura), mas também àquilo que é mais recôndito em nós (e que não sabemos exatamente o que é): nossa subjetividade. Tentar reproduzir essa espécie de simbiose do externo e do interno em um espaço “aberto” é tarefa mais propensa ao fracasso. Bem, fracassemos melhor então.

Talvez a melhor forma de gozarmos desta exposição seja “navegarmos” por ela analogamente ao que se faz quando pesquisamos na web ou mesmo quando lemos um jornal, impresso ou virtual. O que poderia ser o assunto principal, como a pintura, se conecta a outros; às vezes semelhantes, outras vezes aparentemente  díspares.
Como os trabalhos das artistas estão dispostos expograficamente de maneira a não constituir espaços delimitados pela autoria, pela técnica ou por um tema, suas leituras ganham se a navegação pelos espaços, pelas salas, se derem como abas abertas em um celular ou capítulos de um livro ou ainda seções de jornal. Seguindo esta analogia temos quatro abas ou seções expográficas que orientam minimamente as leituras:

  • Circulação: a partir da entrada e da escada que conecta os dois pisos da Casa Contemporânea, temos trabalhos que lidam com linguagens como apropriação, site specific, pintura e monotipia. A livre circulação pela diversidade nos torna mais permeáveis. O permeável acolhe.
  • Experimentação / Ironia: na sala inferior à direita vamos da poesia visual e lúdica à op art (arte ótica) passando pelo vídeo. Onde tudo parece mediado pela retina há também um aspecto de fina ironia, ligado ao que é experimental enquanto ações que abalam o que é estabelecido, ainda que esta não fosse a intenção inicial da artista. Nada desconstrói tão efetivamente uma convenção como a ironia.
  • Aspectos formais: e se falarmos de pintura, o embate inócuo, mas incontornável, da abstração versus figuração é o que temos na sala inferior esquerda. Tanto aquilo que reconhecemos (a figura) como o que a partir da incompreensão do que vemos buscamos ancorar em nosso repertório (a abstração de um elemento) tem seus limites estabelecidos pelo senso comum questionados pela proximidade física entre um e outro modelo.
  • Outras visadas: a sala superior conecta externalidades como as formas de vida, a história da arte ou até mesmo a ideia de “linha do horizonte”, tão perto e tão longe dos olhos. A partir do que vemos, nossa leitura se torna questionamento e altera nossas convicções.

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Qual a leitura que podemos fazer de nosso tempo, o contemporâneo? – talvez a única certeza que temos é que ela será inconclusa. E talvez sempre tenha sido assim para os contemporâneos. Porém há uma obrigação, principalmente em tempos escuros e tempestuosos, da arte e de artistas estabelecerem uma relação honesta consigo e com seu próprio tempo. Isto não passa pela obviedade de uma arte utilitária, ainda que seja uma utilidade politicamente correta, mas pela perigosa tarefa do questionamento de si. O filósofo Giorgio Agamben considera que ser contemporâneo é ser pontual num compromisso ao qual se pode apenas faltar.

Uma tarefa que não pode ser concluída poderia ser considerada um fracasso. A leitura sobre este tempo em que vivemos, onde os sinais parecem totalmente invertidos, colabora para isso. Nesse momento a arte vem nos auxiliar, através do questionamento do que é estabelecido, da importância das coisas vagas, da dimensão do fracasso.

É necessário saber que não há coisas certas. É imprescindível afirmar que há coisas erradas. 

Marcelo Salles
São Paulo, maio de 2021

SERVIÇO

Exposições Leituras – Grupo Pigmento

Curadoria: Marcelo Salles

Período de Visitação: de 25 de maio a 26 de junho de 2021

Terça a sexta, das 14h00 às 17h00

Sábado, das 11h00 às 17h00

Visitas somente com hora marcada:

📩 contato@casacontemporanea370.com

☎️ (11) 2337-3015

*Utilize a máscara sempre que sair de casa

*Todos os protocolos de prevenção contra a covid-19 estão sendo cumpridos.

Realização: Casa Contemporânea

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