A Origem é um lugar Seguro | grupo inpróprio

Textos Críticos

A Origem é um lugar seguro | grupo inpróprio

 

Sei que algumas pessoas pensam que a
tradição é algo morto, contrário ao seu próprio
desenvolvimento ou expressão, mas eu sempre
achei a tradição absolutamente libertadora.
Ian Hamilton Finlay [1]

O processo que resultou nessa exposição durou pouco mais de um ano envolvendo os oito artistas, discussões e o desenvolvimento de seus trabalhos que não visavam, necessariamente, a exposição. Desde o começo a diversidade de linguagens e de visões de mundo estava presente. Porém, nos últimos meses, os artistas conduziram estes trabalhos (ou eram conduzidos por eles) em direção ao passado. O que quero dizer quando faço essa afirmação, já que tratamos aqui de arte contemporânea?

Primeiro: a ideia de contemporaneidade, ou contemporâneo, envolve tanto uma inadequação ao presente como uma relação especial com o passado. Esta não é da ordem do anacrônico, mas do arcaico, isto é, daquilo que está próximo da origem[2].

Segundo:  ir em direção ao passado não é desejar viver em outro tempo (como frisa Agamben), mas entender aquilo que permanece como essência de algo; isto faz com que nossos atos tenham a devida potência no presente. É como um recuo que acumulasse energia neste movimento e nos impulsionasse para a frente.

Esta relação de aproximação com a origem assume várias abordagens, inclusive sob o manto da tradição[3].

Nesta exposição este manto tem cores e tramas da memória, da ancestralidade e da cultura. Tudo entrelaçadamente relacionado.

No tecido da memória tanto Vitor Bossa quanto Leonor Décourt agem no campo da tradição familiar, das reminiscências. Vítor como um arqueólogo que revolve camadas de imagens e tenta ordená-las para compreendê-las enquanto índices de uma família e de inquietações pessoais. Leonor recupera experiências familiares relacionadas ao espaço físico, ao lugar, como algo tão marcante quanto a infância ou adolescência, até por ser componente delas.

É também nessa esfera íntima, familiar, que podemos nos aproximar dos trabalhos em cerâmica de Antônio Pulquério, onde também é potente a marca da ancestralidade; tanto uma ancestralidade mais direta (a descoberta da avó ceramista) como a mais distante, oriunda da escravização a que seus antepassados foram submetidos. Essa mesma ancestralidade Daniel Banin foi buscar na convivência com povos indígenas. A aproximação com a etnia Yawanawa envolveu um processo de entrega e confiança de ambos os lados (Daniel não é descendente de indígenas) que aparece nos trabalhos. A concisão, a verdade dos materiais e a consciência de que ele sempre será um não indígena, o aproximam de uma força nas obras que seria impossível sem o respeito pelo éthos destes povos ancestrais.

Clarice Vasconcellos obtém de reminiscências escolares a técnica para os desenhos apresentados. A relação bordado / linha / desenho gera pequenos signos agrupados em páginas transparentes onde não se tem uma narrativa usual; Clarice retoma, inclusive, a oralidade como veículo de narrativa como era ancestralmente.

Vera Havir nos apresenta esculturas e desenhos. Suas pequenas e delicadas peças moldam o vazio, são “cavidades” onde uma corporificação deste vazio pode escapar. Já os desenhos ora se assemelham a um contraponto, negativando este vazio, ora como que mapeiam as esculturas, nomeando áreas com idiomas mesclados. Que isto ganhe corpo através de uma ciência exercida até recentemente (a odontologia) é significativo.

Muitas vezes a origem de alguns trabalhos está em um passado recente, mas se valem de uma linguagem primordial. Essa conexão se faz pela cultura através da história da arte.

Desta forma Ana Francisca e Suzana Barboza buscam atualizar a pintura. Ana revisita trabalhos de mestres do modernismo, tais como Matisse, e subverte a tradicional perspectiva através de um artifício formado por planos em chapas de acrílico justapostas com uma pequena distância entre elas. Suzana também tem olhos e mente voltados para o modernismo numa pintura que busca dissociar-se de toda e qualquer referência à elementos figurativos, não como premissa programática, mas apenas pela sua busca de uma essência presente em cada um de nós, mas que, para alguns, tem a necessidade de sair de si.

Em um pequeno livro[4], o pensador Félix Guattari chamava nossa atenção para este tempo de mutações aceleradas e que se deteriora lentamente. Para lidarmos com este tempo (sim, podemos chamá-lo de contemporâneo) e pensar como podemos viver daqui para diante seria necessário que buscássemos re-valorizar tanto as relações sociais quanto a subjetividade humana (além, como diz Guattari, o meio ambiente). Haveria, portanto, um procedimento para este valorizar de novo? – Penso que sim e, talvez, a arte seja importante nesse processo. Ela nos faz pensar e isto provoca uma compreensão de processos sociais (escravidão, opressão, genocídios, hegemonias culturais) que precisam ser questionados para que possamos voltar a exercer nossa subjetividade dentro de uma prática ético-estética, que acaba por se tornar política, onde os indivíduos devem se tornar a um só tempo solidários e cada vez mais diferentes[5]. Também faz um caminho inverso, ou seja, como de uma subjetividade exercida esteticamente adentra a esfera social tanto na escala micro (compreensão de relações familiares ou amorosas) ou macro (a práxis de uma profissão ou a busca da compreensão de questões ontológicas).

O ato de pensar guarda uma angústia. Ainda assim é ele que auxilia a nos aproximarmos da Origem; seja ela como tradição, como ancestralidade ou algo construído como a cultura. Essa angústia, principalmente enquanto artistas, nos move; faz encontrar um lugar onde nos reconhecemos. Quando encontramos este lugar a compreensão se torna possível: de nós, do outro e do que está além e aquém do que somos. Torna-se um lugar seguro, para onde voltamos quando tempos sombrios nos desestabilizam e perdemos a potência de agir e sentimos os medos, todos. Para onde voltamos para recuperar as forças, crermos em nós. Todos.

Dificilmente abandona
o que mora próximo da origem, o lugar.[6]
Hölderlin

 

Marcelo Salles


[1] – Citado em Estratégias da arte em uma era de catástrofes, Maria Angélica Melendi, pg. 87, editora Cobogó.
[2] – O sentido de arcaico como algo próximo da arké (origem, essência) é exemplarmente colocado pelo filósofo Giorgio Agamben (in O que é o contemporâneo)
[3] – Vejamos uma das definições do verbete pelo dicionário Houaiss: aquilo que ocorre ao espírito como resultado de experiências já vividas; recordação, memória, eco.
[4] – Guattari, Félix. As três Ecologias. Campinas, Papirus editora, 2006 (17a edição)
[5] – Idem,p.55
[6] – Heidegger, Martin. A origem da obra de arte. São Paulo, Edições 70, 2010, p. 200/201

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